Exmo. Sr. João da Costa,
A sabedoria política é feito alguns vinhos, amadurece com o tempo. Um enólogo apressado pode botar uma safra a perder. Essa história de “medidas de impacto”, um jargão político para administradores recém-empossados, talvez não tenha sido bem assimilada por Vossa Excelência. Esqueceram de dizer ao senhor que o “impacto” aí não é sinônimo de porrada, mas medidas administrativas imediatas que tenham efeito positivo sobre parcelas da população e reverberação política na mídia e nos elementos formadores de opinião.
Desde que o senhor assumiu, imagino que burocratas que o cercam têm-no instado a adotar ações que em várias ocasiões têm levado aos atingidos gritarem palavras de ordem como “quero meu voto de volta”. Ora, sem estudo prévio ou discussão, o senhor, no melhor estilo “prendo e arrebento”, proibiu a venda de petiscos na praia. Ora, uma cidade praieira e de tradição de mascates como o Recife não suportaria tamanha truculência. Isto sem falar que nossa orla, ao contrário de outras capitais, não possui bares de praia, exatamente por culpa de nossos governantes.
Só pra refrescar vossa memória, o Projeto Cura, financiado pela Caixa Econômica Federal, há cerca de 20 anos atrás, previa a instalação de palhoças ao longo da orla e uma espécie de praça de alimentação no Segundo Jardim, que inclusive chegou a ter o contorno alargado à frente do Califórnia, para o desvio da avenida. Ocorre que o então prefeito recém-empossado, sr. Joaquim Francisco, alegando que isto aumentaria o alcoolismo na cidade –ai! - alterou o projeto e só manteve as barraquinhas de coco, inclusive as proibindo de vender sequer latinhas de cerveja. Onde ele enfiou a grana que sobrou do projeto não se sabe.
Proibir as pessoas de venderem os deliciosos camarões à la Expedito, as ostras de Itapissuma – faz 30 anos que as consumo e nunca tive uma flatulência –, os caranguejos de coco, é tirar de uma vasta parcela da população sua única fonte de renda. E condenar os banhistas à fome eterna. A Bíblia já dizia, dai de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede. Vetar as cervejas em garrafas de vidro é outra insanidade de burocratas. Isto é medida para ser tomada em campos de futebol ou aglomerações similares. As garrafas são mais econômicas, higiênicas e poluem menos que as latinhas. Argumentar que quando quebradas tornam-se uma arma é oligofrenia pura. Nunca vi uma briga na praia, exceto nos negros tempos do Recifolia. Outra coisa, o senhor já viu alguém conseguir quebrar uma garrafa na areia? O cara que conseguir tal façanha não precisa de garrafa para acertar o desafeto.
O famigerado Dircon tem sido a sua linha auxiliar, designado que está sendo para fazer o trabalho sujo de sua administração. Bater em camelô, arrastar pelas ruas vendedor de espetinho, invadir bares para confiscar o som, sem qualquer ordem judicial ou comunicação prévia fazem lembrar tempos idos, que Deus queira que não voltem mais. Enquanto isso, o centro da cidade se dilacera, esburacado, alagado e cheio de lixo.
Na sexta-feira, dia 24 de abril, testemunhei – e até fui vítima - de um episódio, como se diz, emblemático. Estávamos sorvendo nosso Jack Daniel’s, devidamente aboletados numa mesa à frente do bar Central, quando dois caminhões pararam e deles desceram alguns homens de preto. Eles começaram a se aglutinar, feito formigas assassinas, que se reúnem, antes de desfecharem o ataque fulminante. Daí em diante o que se viu foi uma sequência de grosseria e abuso de autoridade. Ele nos expulsavam das mesas e ameaçavam quem insistisse em permanecer sentado. A reboque, os trogloditas do batalhão de choque invadiram o espaço, ameaçadoramente. Chegaram a bater e levar em cana o garçom Yorubá, do Central, que apenas tentou segurar uma mesa para guardá-la no bar em vez de entregá-la ao fiscal. Lembrei da frase atribuída a Otto Lara Resende: “Não tenho medo do general; tenho medo do inspetor de quarteirão”. Isto tudo ocorreu numa rua, onde raramente passa um carro ou um pedestre e que sem o bar estaria entregue às baratas, ratos e marginais que infestam outras artérias do centro.
Excelência, dizem as más línguas que o senhor não bebe. Nada contra, embora ache que o defeito maior do ser humano seja a abstinência. Mas o aconselharia a dar uma esticadinha até as efervescentes ruas do Quartier Latin, de Paris; às verdadeiras passarelas, protegidas por arcos milenares, de Florença ou de Roma; ou aos Biergarten de Munique. Mesas, cadeiras e pessoas se aglutinam numa festa diuturna. “Mas lá eles são disciplinados”, argumentaria o senhor. Tudo bem, senhor prefeito, discipline, discipline. Entre isso e tomar as “medidas de impacto” que Vossa Excelência está tomando há uma distância quilométrica.
Conselho final: mude de rota enquanto é cedo. O povo que o elegeu já está começando a pedir seu voto de volta e a fazer trocadilho impublicável com seu nome. Passar bem.
Manoel Bione


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