Blog do papa-figo


15/07/2008


AGORA FALANDO SÉRIO (II)

A VOZ DO DONO

 

Manoel Bione*

 

   Adentrei o tapete verde da chamada grande imprensa nos idos da década de 1970. Foi fascinante. O cheiro de fumaça no ambiente fervilhante da redação. O corre-corre do fecha-fecha. E a censura comendo solta. As páginas de telex, avisando o que não podia ser publicado, pregadas no quadro de avisos - o concorrido quadro era o “jornal” mais lido pelos jornalistas. Eu tocava minha vida entre os estudos de medicina e o jornalismo. E aos poucos ia se descortinando para mim um mundo de interesses escusos - e às vezes até claros demais, em cada linha e em cada foto publicadas.

   Nessa época, numa noite qualquer, acordei sobressaltado. Um sonho estranho invadira meu dormir. Atravessava eu a ponte Duarte Coelho, no centro do Recife, quando me deparava com Luiz Gonzaga a puxar sua sanfona branca, fazendo dueto com Fagner, num forró danado de bom. Enquanto eu olhava, embevecido, para aquela dupla, um colega de redação me convidava, de dentro do rio, para ir juntar-me a ele. O colega – já falecido, que Deus o tenha – chafurdava na lama da maré baixa, atolado até os peitos. Eu, deslumbrado com a música e até cantando junto com “seu Luiz” e com Fagner, sinalizava que rejeitava o convite do colega. Ante minha recusa, ele saiu do rio na tentativa de me arrastar até aquele lodaçal. Lembro que acordei sobressaltado, após correr léguas intermináveis, perseguido pelo colega enlameado. Ufa!, o despertar me safou.

  Dá para sentir a relação esquizóide que, desde sempre, mantive com a chamada grande imprensa. O cheiro da tinta, do fumo, do chumbo – sim, nessa época off-set e computador eram coisas raras -, os sons das rotativas, os berros histéricos dos editores eram aromas e músicas aos meus sentidos. O clima de medo, corrupção, covardia, dedurismo, me enojava como a lama fétida do rio.

 

É A LAMA, É A LAMA - E assim se passaram trinta e tantos anos. E pouca coisa mudou. Mudaram os atores, os personagens, os diretores, a ditadura deu com os burros n’água, mas a comédia burlesca é a mesma. Talvez até com roteiro mais medíocre. Naquele tempo, pelo menos, a maioria tinha um inimigo comum, o regime militar. Hoje manda o famigerado mercado.

   Peguem-se episódios isolados para termos a visão do todo. Algumas grandes publicações garantem seu faturamento a partir da extorsão a setores do governo, que devem garantir um mínimo de páginas de anúncios, senão surgirá uma nova “denúncia” contra alguém próximo à presidência, ao ministério ou à estatal que reduziu ou cortou a cota publicitária. O sagrado instituto da fonte passou a funcionar como balcão de negócios. Vide as espalhafatosas chamadas de capa inspiradas nas “denúncias” de Daniel Dantas. Enfim, tudo pode ser reduzido a três palavrinhas: bajulação, extorsão, jabá. Jabaculês dos mais sofisticados e valiosos. As caudalosas matérias sobre os lançamentos Hollywoodianos, de novelas globais ou de CDs/DVDs de infames duplas sertanejas não me deixam mentir.

   Tudo isso salpicado de lances do mais puro golpismo contra um governo democraticamente eleito. Lembre-se do episódio das notas destinadas a pagar um suposto dossiê contra o PSDB. O inquérito corria em segredo de justiça, mas um meganha federal fotografou as notas e, em seus 15 minutos de glória, vazou as fotos – exigindo que a Globo fosse a primeira a ter acesso aos slides. Em seguida, todos os jornalões e revistas semanais estamparam em suas capas as tais fotos. Pero não publicaram, até hoje, o conteúdo do tal dossiê, sob o argumento de que o processo corre sob o mesmo “segredo de justiça”.

   Como no antigo slogan da RCA Victor, tudo não passa da voz do dono - aquele que está atrás do balcão comandando os negócios. Qualquer semelhança entre o que é publicado e a verdade será mera coincidência.

   Quequé, isso, meu rei, quer dizer que não tem imprensa séria neste país? Não sobra prega sobre prega? Eu não sou mané pra dizer que não. Mas aí já é pauta pra outra matéria. Tem muita gente boa trabalhando em órgãos ruins e vice-versa. O néctar dos deuses é a coincidência de órgãos sérios tocados por profissionais competentes e éticos.

Mas, no grosso, é o que sempre digo em meus papos com estudantes e jovens jornalistas: entre a mídia escrita, falada e televisada, prefiro um bom prato de jabá.

 

*Artigo revisado, publicado originalmente no Trem Itabirano, MG, edição de julho de 2007.

 

O PAPA-FIGO – ANO XXIV (ops!) – Fundador, proprietário, editor e office-boy: Bione

(Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, mortas-vivas ou extraviadas será mera paranóia de quem achou).

Bote no nosso e-mail: papa-figo@uol.com.br

Escrito por papa-figo às 11h29
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