Blog do papa-figo


08/04/2008


A AVANTAJADA COLUNA DE IVAN-PÉ-DE -MESA

MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS ALEGRES

 

Nunca conheci uma puta triste. Isso é coisa de feminista e de Gabriel Garcia Márquez. Onde tem puta, tem cachaça, riso e – naturalmente – putaria. Esse negócio de socializar a putaria e a pobreza é coisa de comunista e sociólogo, senão eles não teriam razão de existir. Se assim fosse todo homem pobre era ladrão e toda moça pobre era puta. Mas não, o Lá de Cima nos deu uma coisa chamada livre arbítrio. Uns escolhem ser engenheiros, outros, médicos. Alguns optam por ser políticos, outros, ladrões – perdoem o pleonasmo. Assim como as putas – sem trocadilho. Salvo exceções, elas escolheram o destino. É tanto que tem puta pobre, puta de classe média e puta rica.

Na minha distante Timbaúba, que hoje não passa de um quadro na parede, e não dói nada, os lugares mais felizes eram o bar, a sinuca e a zona. Lá imperava Penha, misto de puta de rico e cafetina do Rosa, o bar mais famoso do local. Só vi puta chorar quando estava bêbada e/ou apaixonada. Penha tinha uma teoria: intelectual é que tem mais pena delas. Conversam mais, mas fodem do mesmo jeito.

Uma vez estava com uma menininha - menininha modo de dizer que a patrulha anti-pedofilia tá foda! -  no colo e comecei a entoar, junto com a tonitroante voz de Oldair José, a singela melodia “Eu vou tirar você deste lugar”, quando ela deu um pulo, botou a mão nos quartos e lascou: “E quem foi que disse que eu quero? Passando, abacaxi!”.  Depois dessa nunca mais fiz tal proposta pras alegres menininhas do Rosa.

Mas eu estava falando de Penha. Pense numa puta bem resolvida. Tinha seu negócio próprio e emprestava o próprio negócio ao coronel Ibernon. Embora quando ele estava viajando ela costumava negociá-lo – o próprio negócio - a preços módicos aos menos favorecidos que freqüentavam seu bar. Um desses era João Aratanha, meu mano mais velho.

Tempo desses, de passagem por Timbaúba, resolvi refazer o roteiro sentimental de minha longínqua juventude. Tomei uma no bar Maracanã, joguei uma partida de sinuca no bar do Galo e fui ver o que restava da zona, nesses tempos de motel e de trepadas virtuais. Apesar da relativa decadência, o Rosa e Penha estavam inteiraços. Depois da primeira cerveja, já tinha um putinha alegre sentada em meu colo. Nisso chega Penha, pergunta se pode sentar. “Claro!”. E começamos a papear. Depois de algumas trocas de intimidades, ela pergunta:

- Você, por acaso, é irmão de João Aratanha?

- Sou, por quê?

- Tadinho, aquele menino criou-se aqui dentro...

Conversa vai, lembranças vêm, Penha arrematou o papo com um segredo.

- Me lembro do dia em que eu tava transando com ele e Ibernon chegou de repente. Ao ouvir, o barulho no quarto, arrombou a porta com uma botinada e a arma em punho. João correu pelos fundos e escalou um muro de mais de três metros, recentemente rebocado de chapisco. Ele caiu do outro lado todo arranhado, mas conseguiu se escafeder. Desse dia em diante, mudaram o nome dele. De João Aratanha, passou a ser chamado João Lagartixa.

 

O PAPA-FIGO – ANO XXIV (ops!) – Fundador, proprietário, editor e office-boy: Bione. (Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, mortas-vivas ou extraviadas será mera paranóia de quem achou). Bote no nosso e-mail: papa-figo@uol.com.br

        

 
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Escrito por papa-figo às 16h12
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