Por Manoel Bione
Eu adoro samba. Esse gosto pode ser conferido através de várias maneiras. Pelas músicas que escolho para ouvir no rádio e na TV. Pelas centenas de discos – bolachões, CDs e DVDs – que possuo. Pelas letras de sambas antigos que sei de cor. Ou pelas músicas que canto – se bem que nesse caso eu não aconselharia ninguém a conferir, sob pena de ter a festa estragada ou o tímpano avariado.
Dos sambas de origem rural de Donga à sofisticação melódica de Cartola; da temática urbana de Noel à apologia da malandragem de Bezerra da Silva; do telecoteco de Cyro Monteiro à suavidade de Paulinho da Viola, ouço tudo. Tudo, vírgula. Me chame para um “pagode” que eu prefiro uma missa de sétimo dia ou o enterro da cachorrinha da vizinha. Estou fora também dos sambas de enredo de hoje, os famigerados “sambas Frankenstein”, formados por pedaços, refrões e estrofes de vários sambas que concorreram ao concurso da escola. Daí o grande número de compositores de um mesmo samba.
Já deu pra desconfiar que esses prolegômenos foram só para introduzir uma fala sobre o fatídico desfile da Mangueira em homenagem ao frevo. Ao contrário do que escreveu minha dileta amiga Célia Labanca, no Jornal do Commercio de 12/02/2008, não esperei ansioso o desfile da Estação Primeira de Mangueira. Até porque me encontrava curtindo o carnaval numa cama de hospital, vitimado por uma traiçoeira pneumonia, que pelo jeito não gosta nada de folia. Só ouvi, no dia seguinte, os comentários de Carlinhos de Jesus, reconhecendo o fiasco que foi o desfile e atribuindo parte do fracasso ao repentino toró que desabou sobre a escola no exato momento do desfile. Dizem as más línguas que, naquela hora, Gustavo Krause fazia, em frente à TV, a dança da chuva.
Não existem motivos para grandes decepções. O samba já homenageou as coisas de Pernambuco em outras ocasiões. Nem por isso percebemos mudanças, para pior ou para melhor, em nossas tradições, usos e costumes. Vide, por exemplo, “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, de Martinho da Vila, enredo da Vila Isabel para o desfile de 1972: “Aprendeu-se a liberdade/ combatendo em Guararapes/ entre flechas e tacapes/ facas, fuzis e canhões...”. Afora o fato de o autor ter recebido o título de cidadão de Jaboatão, nada foi alterado, nem na sua vida nem na nossa. Da mesma maneira o frevo já homenageou o samba. Em 1958, “Evocação número 2”, de Nelson Ferreira e Osvaldo Santiago, dizia: “Recife neste carnaval/ rende homenagem/ ao sambista brasileiro/ a Noel, Sinhô e Chico Alves/ aos ranchos e escolas do Rio de Janeiro...”. E, lá e cá, tudo continuou como d’antes.
Confesso que fiquei balançado para ir ao Rio neste carnaval. Choveram convites. Até que eu iria. Não pelo desfile da Mangueira em si, pois gosto do carnaval do Rio, que, aliás, não se resume ao desfile das escolas de samba. Iria mais pelos seus blocos, como Suvaco de Cristo, Banda de Ipanema, Simpatia é quase amor. E dezenas de outros que desfilam em bairros de periferia como Bangu e Madureira – onde se concentra o maior número de quadras de escolas de samba do Rio. Os blocos e escolas nas ruas e a folia nas quadras transformam o Rio em verdadeiro formigueiro em festa. Vale conferir.
Mas, por motivos vários, terminei desistindo. Mesmo porque, querida Célia, não esperava da Mangueira algo muito diferente do que se viu. Desfile de escola de samba, há muito, está mais para o surrealismo de Salvador Dali. Lembre-se de que, já nos idos de 1968, Sérgio Porto (O saudoso Stanislaw Ponte Preta, então o mais ferino cronista do país) cunhou a expressão “Samba do crioulo doido”, título de uma espécie de samba de enredo de sua autoria que retratava a porralouquice do gênero: “Foi em Diamantina/ onde nasceu JK/ que a princesa Leopoldina/ arresolveu se casar/ mas Chica da Silva/ tinha outros pretendentes/ e obrigou a princesa/ a se casar com Tiradentes...”. Ou você acha que a Beija-Flor, campeã do desfile, com seus carros apinhados de figuras estrambóticas, falava alguma coisa sobre a cidade de Macapá, tema de seu enredo?
Não acho que por conta desse caldeirão limeiriano que virou o desfile das escolas de samba o frevo corra perigo, que nossas tradições fiquem abaladas ou que os 3 milhões de reais gastos pela prefeitura para ajudar no desfile da Mangueira tenham sido jogados fora. Em se tratando de escola de samba, essas coisas são previsíveis. Para mim, se botarem uma fita com o desfile do ano passado, dizendo que foi o atual, assisto enganado, com o mesmo desinteresse.
Como se vê, sou “assim” com o samba. Conheço suas belezas e suas mazelas. Por tudo isso - ou apesar de tudo isso -, ele mandou me chamar. Mas eu não fui.
O PAPA-FIGO – ANO XXIV (ops!) – Fundador, proprietário, editor e office-boy: Bione
(Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, mortas-vivas ou extraviadas será mera paranóia de quem achou).
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