No início era o verbo, o que tornava a conversa muito da sem nexo, como promessa de político. Mas Eu não ligava porque era só Eu e Deus. Ou seja, Eu e Eu mesmo. Mas aquilo tava muito do monótono, já que Eu não queria papo com o capeta, que era o único vizinho que tinha. Pra você ter uma idéia, a única vez que encontrei com o diabo, teta-a-teta, foi num filme daquele tal de Gláuber Rocha, cujo título falava de Eu e o Todo Ruim na Terra do Sol. Entonces, pensei com meu zíper em arranjar um companheiro pra bater um lero de vez em quando. Daí tive a idéia de criar Adão. Logo, para viabilizar a conversa, inventei os substantivos, preposições, adjetivos etc. Mas juro que não inventei a gramática. Aquilo deve de ter sido obra do cão.
Mas antes de fazer Adão, inventei a luz e vi que era boa. Foi só eu gritar “fiat lux” que um fósforo do tamanho do mundo se acendeu e as coisas ficaram mais claras. Foi uma belezura. Até então eu vivia tropeçando nos astros distraído, com aquela escuridão da goitana. Depois criei os dias e as noites, que eu não tava conseguindo dormir direito com aquele quilarão na cara. Aí ficou um dia atrás do outro e a noite no meio.
A luz me clareou muita coisa que, como corno, Eu era o último a saber. Por exemplo, eu descobri que o mundo era uma água só. Seu minino, Eu nunca tinha visto tanta da água eternidade afora, mais parecia o açude de Orós. Então resolvi separar águas e terras. E vi que era bom. Tudo bem. Tinha sardinha com falta de ar, tubarão pedindo socorro e Netuno me ameaçando de tridente em punho. Mas alguma coisa tinha de ser feita. Eu podia muito bem ter feito tudo terra firme, não podia? Mas não. Democraticamente, fiz a terra, mas deixei a água e também deixei as geleiras dos pólos da terra.
Às vez a turma esquece que Eu sou onisciente. De jumento eu só tenho a peia. Se não fosse a terra firme ainda hoje a gente estávamos morando em palafita. O prefeito João Paulo e o pessoal de Brasília Teimosa sabem disso.
Por outro lado, se não fossem as águas, ninguém ia agüentar a inhaca no ônibus. Já o gelo, eu fiz questão de deixar também. Sem essa providência, ainda hoje a gente ia estar tomando uísque quente, né mesmo?
Mas ninguém agrada a todo mundo. Até meu filho se arrombou quando cismou do quinca de visitar a terra. Magine eu, velho decrépito, no fim da vida... Por isso quero distância dessa gente. Mas, mesmo assim, Eu vou continuar escrevendo minhas memórias não autorizadas no Papa-figo, que a grande imprensa tá mais ligada pro lado do capeta. Ele paga mais.
Até o próximo número. Se Eu quiser.
PAPA-FIGO – ANO XXIII – Fundador, editor, proprietário e office-boy: BIONE.
Bote no nosso e-mail: papa-figo@uol.com.br.
(Esta é uma obra de fricção. Qualquer semelhança com pessoas vivas, mortas-vivas ou extraviadas será mera paranóia de quem achou).


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